quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A chance

Nada me tira essa idéia fixa por chances. Sério. Uma chance pode ser o abismo entre o sucesso e o fracasso, a decisão entre vida ou morte. Qualquer pessoa sabe que quando se trata de chance, independente da esfera de atuação, é sempre bom parar e pensar o que fazer com ela, deixar tudo pra traz ou voltar e deixar a chance partir? Arriscar deixar passá-la e com ela a felicidade? Negar a negação de ser o que já é e tentar ser o que ainda se pode ser? Uma chance é uma lâmina que sempre te dividirá. E quando você não tem o controle sobre quais decisões tomar, geralmente a lâmina não te divide, ela te dilacera e, posto você em pedaços, me diga, como pode escolher um caminho? Até pode, se for capaz de recolher os cacos e re-aprender a andar. E reaprender a tomar decisões e definitivamente saber como lidar com chances, muitas vezes únicas. Deixar uma chance passar geralmente é um preço pago por nós, jovens, e quando nos vemos um pouco perdidos e atormentados nos perguntamos como poderia ter sido se tivéssemos agarrado essa ou aquela chance que nos fora dada em outrora. Quando deixamos essa espécie de oportunidade passar, também estamos falando para o nosso eu interior que temos o controle da situação, que sabemos exatamente que tal ou qual chance não vingaria no amor, no trabalho, nas amizades, nas relações sociais, etc. Somos senhores de nós mesmos. Altaneiros. E é sempre muito difícil assumir que deixamos uma chance excepcionalmente única passar, porque isso nos frustraria de tamanha maneira que não suportaríamos conviver com o que já somos pensando no que, certamente, seríamos. Todavia, o medo de se mover faz com que eu, você e milhares de pessoas deixem tantas chances passarem. E quando deixamos passar a semente que finalmente irradiará nosso jardim, nos damos conta de que nenhuma outra semente pode semear o que tanto esperávamos que brotasse. Contudo, a vida não me deixa mentir, há sempre uma  outra chance.  Mas você tem de ser forte o suficiente pra lutar contra um tempo que já passou. E o tempo é curto. Sempre será.


Uma chance é como um rio: se você não tentar atravessá-lo, jamais estará certo se você o atravessaria.


Seledon, Rodrigo.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Não sei?

Não sei se vou,
não sei se fico,
não sei se calo,
não sei se digo.

Não sei se sou,
não sei quem é,
não sei se é mão,
não sei se é pé.

Não sei porquê,
não sei aonde,
não sei se mostra,
não sei se esconde.
Não sei se fere,
não sei se dói,
não sei se arruma, não sei se destrói.

Não sei se nasce,
não sei se morre,
não sei se enxuga,
não sei se escorre.

Eu queria saber, mas te amo.



Rodrigo Seledon. 10/07/2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

A precisão.

Num dia qualquer de outro ano passado (obviamente), me lembro de algo interessante que desejo, de forma livre, compartilhar com vocês. Na minha vida, conheço pessoas do lixo e pessoas do luxo, as mais esperançosas pessoas e as mais desacreditadas da humanidade, há também as desequilibradas em contraste com as pessoas frias em quaisquer situações, em suma, houve e continua havendo abismos entre as diversas pessoas que conheço e isso, de um modo ou de outro, sempre me ajudou a conceituar a iniqüidade da vida nos mais diversos parâmetros. Sem me deixar divagar, já conto a vocês que se trata de um dia que, por ventura, na faculdade, não queria assistir determinada aula e fiquei a observar o movimento pela redondeza, no pátio, na quadra, na cantina, pensando, inclusive, em fatos cotidianos, eis que  um jovem chega e começou a conversar, mas de maneira jamais imaginável, pelo menos eu jamais imaginei que alguém pudesse ali, mandar uma indagação profunda para a iniciação de uma conversa comigo, o estranho. E eis o que o jovem disse, se aproximando: “Já parou e perguntou POR QUE eles e nós precisamos disso? Disso tudo...”. Naturalmente, eu fiquei desconcertado, aliás, nem consegui entender a concepção da pergunta daquele cara, respondi por instinto que não, que nunca tinha me perguntado sobre, ele ficou por uns longos minutos num silêncio ensurdecedor, depois  eu tentei me expressar, mas não consegui, ele completou, de maneira menos sucinta que sua pergunta inicial: “Nós precisamos de outras coisas e, no entanto, estamos aqui procurando algo que nem sabemos o que é, né?”. Sinceramente, eu nem lembro muito bem  o que comentei ou se a conclusão dele teria sido bem com essas palavras, mas foi, sem dúvida, um dia que não me sai da memória e que me fez pensar até mesmo no que eu estava buscando num curso de faculdade, no que as pessoas buscavam, em qual era o centro de razão de uma coisa muito provavelmente irracional. Encontrei esse cara, outras três ou quatro vezes, em lugares tão improváveis quanto a sua frase inicial daquele dia e desejei muito perguntar se ele descobrira o que estava perseguindo, depois notei que não se tratava de saber do que se persegue ou o que se sonha, muito menos saber do que se precisa, se tratava de não temer estar errado sobre.

Nossos medos são como calendários passados: aguardam na estante até que você os troque por outros.


Rodrigo Seledon.

domingo, 16 de outubro de 2011

Terra.

Dias curtos, pessoas sem tempo para tomarem nota de suas atitudes,valores, responsabilidade e crenças. Os dias curtos convertem as pessoas em máquinas pouco eficazes nas relações humanas, mas, sobretudo, fabricam pessoas incapazes de produzir suas próprias convicções, incapazes de tomarem o rumo, de exercerem em seus atos a promessa cumprida de suas ideologias. Elas colocam o barco no mar e estão perdidas, mas te juram que o destino é o Norte, ou o Leste. Elas não acham que Deus está "lá fora" e tampouco aqui dentro, mas apostam umas fichas para dizer que você tenha fé em Deus. Elas são confusas e elas te confundem. É um risco. É um labirinto, sem entrada, sem saída, sem parede, mas é um labirinto. Chama-se hipocrisia e inclusive eu também já a pratiquei, não é tão simples conviver tendo de construir seus muros esperando que eles jamais caiam diante da guerra universal. Da conduta "eu sou melhor que você". Um batalhão de opiniões reforçadas por teólogos ligeiramente amendrontados e que colocam o pânico em outras pessoas. Talvez seja melhor nunca erguer os muros, mas, então, não há risco. E sem o risco, você não sente o que deveria sentir e passa a viver de modo que as tuas verdades sejam convenientes a você e ao que te rodeia, mas que, com certeza, se fazem as maiores mentiras na solidão do anoitecer. O medo de confiar, construiu a decisão de sempre duvidar. O medo de perder, construiu - com sucesso - o direito a abandonar o palco da disputa. Parece que é justo criar suas virtudes para que o próximo te aceite de uma maneira menos distante, mais justa e pouco vulnerável. Mentira. O abismo entre as pessoas vai aumentando, os alicerces da hipocrisia se tornam as razões de acreditar numa personalidade que não existe e o fracasso social, pai da solidão, se coloca imponente na mesa de jantar com a angústia, a revolta e as mentiras verdadeiras comas verdades mentirosas.

A hipocrisia é como um violão sem cordas: Pode ser usado, desde que você saiba a posição das notas.

Seledon, Rodrigo.

sábado, 10 de setembro de 2011

E o que ainda somos?


Era e ainda é terça-feira,
o pássaro de aço cortou o ar,
atravessou a fronteira,
e o país começava a sangrar.

E havia mais por vir,
um sozinho não bastaria,
duas torres para implodir,
em pouco tempo outro viria.

Os patrões do mundo,
os donos da maior cerviz,
que golpe profundo,
no coração daquele país.
Que será que matou mais,
o terrorismo  do barbudo,
ou o terror que não sai nos jornais?
Comigo penso e fico mudo.

Contra-atacar foi a resposta,
algum país era culpado,
um presidente de bosta,
e um inimigo aliado.

O mundo jamais foi igual,
e o medo venceu com vigor,
mas aqui ainda tem carnaval,
futebol, cerveja e amor.


A humanidade é como um porta-retrato sem apoio: Tem lá seu valor, mas perdeu o seu alicerce.

Seledon, Rodrigo. 10/09/2011.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Poema com palavras tão bonitas.

A gente.

A gente vive querendo o que não tem
A gente dorme e não quer acordar
A gente se busca em outro alguém
A gente é uma ilha no meio do mar

A gente não entende a vida
A gente pretende viver?
A gente reabre a ferida
A gente quer ver pra crer

A gente se esconde da gente
A gente vai na contra-mão
A gente oculta a vertente
A gente não tem coração

A gente parece miragem
A gente parece um só
A gente é como tatuagem
A gente é, na garganta, esse nó.

Rodrigo Seledon.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Do que se trata o verbo VENCER.

Gostaria de compartilhar um trecho do livro "Portas para o infinito" do escritor Carlos Castaneda. Nesse trecho em especial, Don Juan Matos ensina e fala sobre as vitórias parciais do homem sobre seus medos para a suprema vitória do homem na vida. É simplesmente genial, um texto relativamente grande, mas que vale a pena. Leiam.

"Devagar ele começa a aprender...a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se um campo de batalha.

E assim se depara com o primeiro de seus inimigos naturais: o medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto fim à sua busca.

- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?

- Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento,talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo, de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto um fim aos seus desejos.

- E o que ele pode fazer para vencer o medo?

- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito se torna mais forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.

- Isso acontece de uma vez, Don Juan, ou aos poucos?

- Acontece aos poucos, e no entanto o medo é vencido de repente e depressa.

- Mas o homem não terá medo outra vez se lhe acontecer alguma coisa nova?

- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque em vez do medo, ele adquire a clareza... uma clareza de espírito que apaga o medo. Então o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los. Pode antecipar os novos passos na aprendizagem e uma clareza viva cerca tudo. O homem sente que nada se lhe oculta.

E assim ele encontra seu segundo inimigo natural :A clareza .Essa clareza de espírito, que é tão difícil de obter, elimina o medo, mas também cega. Obriga o homem a nunca duvidar de si. Dá-lhe a segurança que ele pode fazer o que bem entender, pois ele vê tudo claramente. E ele é corajoso, porque é claro; não pára diante de nada, porque é claro. Mas tudo isso é um engano; é como uma coisa incompleta. Se o homem sucumbir a esse poder de faz de conta, terá sucumbido ao seu segundo inimigo e tateará com a aprendizagem. Vai precipitar-se quando devia ser paciente, ou vai ser paciente quando deveria precipitar-se. E tateará com a aprendizagem até acabar incapaz de aprender qualquer coisa a mais.

- O que acontece com um homem que é derrotado assim, Dom Juan? Ele morre por isso?

- Não morre. Seu inimigo acaba de impedi-lo de se tornar um homem de conhecimento; em vez disto, o homem pode se tornar um guerreiro valente, ou um palhaço. No entanto, a clareza, pela qual ele pagou tão caro, nunca mais se transformará de novo em trevas ou medo. Será claro enquanto viver, mas não aprenderá nem desejará nada.

- Mas o que tem de fazer para não ser vencido ?

- Tem de fazer o que fez com o medo: tem de desafiar sua clareza e usá-la só para ver, e esperar com paciência e medir com cuidado antes de dar novos passos; deve pensar acima de tudo, que sua clareza é quase um erro. E virá um momento em que ele compreenderá que sua clareza era apenas um ponto diante de sua vista. E assim ele terá vencido seu segundo inimigo, e estará numa posição em que nada mais poderá prejudicá-lo. Isto não será um engano. Não será um ponto diante de sua vista. Será o verdadeiro poder.

Ele saberá a esta altura que o poder que vem buscando há tanto tempo é seu, por fim. Pode fazer o que quiser com ele. Seu aliado está às suas ordens. Seu desejo é ordem. Vê tudo que está em volta. Mas também encontra seu terceiro inimigo; o poder.

O poder é o mais forte de todos os inimigos. E, naturalmente, a coisa mais fácil é ceder; afinal de contas, o homem é realmente invencível. Ele comanda; começa correndo riscos calculados e termina ditando regras, porque é um senhor. Um homem neste estágio quase nem nota que seu terceiro inimigo se aproxima. E de repente, sem saber, certamente terá perdido a batalha. Seu inimigo o terá transformado num homem cruel e caprichoso.

- E ele perderá o poder?

- Não ele nunca perderá sua clareza nem seu poder.

- Então o que o distinguirá de um homem de conhecimento?

- Um homem que é derrotado pelo poder, morre sem realmente saber manejá-lo. O poder é apenas uma carga em seu destino. Um homem desse não tem domínio sobre si, e não sabe quando ou como utilizar se poder.

- A derrota por algum desse inimigos é uma derrota final?

- Claro que é final. Uma vez que esses inimigos dominem o homem não há nada que ele possa fazer.

- Será possível que o homem derrotado pelo poder veja seu erro e se emende?

- Não. Uma vez que o homem cede está liquidado.

- Mas e se ele estiver temporariamente cego pelo poder, e depois o recusar?

- Isto significa que a batalha continua. Isto significa que ele ainda está tentando ser um homem de conhecimento. O indivíduo é derrotado quando não tenta mais e se abandona.

- Mas então, Dom Juan, é possível a um homem se entregar ao medo durante anos, mas no fim vencê-lo.

- Não, isso não é verdade, se ele ceder ao medo, nunca o vencerá, porque se desviará do conhecimento e nunca mais tentará. Mas se procurar aprender durante anos no meio de seu medo, acabará dominando-o, porque nunca se entregou realmente a ele.

- E como um homem poderá vencer seu terceiro inimigo, Don Juan ?

- Também tem de desafiá-lo, propositadamente. Tem de vir a compreender que o poder que parece ter adquirido na verdade nunca é seu. Deve controlar-se em todas as ocasiões, tratando com cuidado e lealdade tudo o que aprendeu. Se conseguir ver que a clareza e o poder, sem controle, são piores do que os erros, ele chegará a um ponto em que tudo estará controlado. Então saberá quando e como usar seu poder. E assim terá derrotado seu terceiro inimigo. O homem estará então, no fim de sua jornada do saber, e quase sem perceber encontrará seu último inimigo; a velhice! Este inimigo é o mais cruel de todos, o único que ele não conseguirá derrotá-lo completamente, mas apenas afastar. É o momento em que o homem não tem mais receios, não tem mais impaciência de clareza de espírito... um momento em que todo o seu poder está controlado, mas também o momento em que ele sente um desejo irresistível de descansar, se ele ceder completamente a seu desejo de se deitar e esquecer, se ele afundar na fadiga, terá perdido a última batalha, e seu inimigo o reduzirá a uma criatura velha e débil, seu desejo de se retirar dominará toda sua clareza, seu poder e sabedoria. Mas o homem sacode sua fadiga e vive seu destino completamente, então poderá ser chamado de um homem de conhecimento, nem que seja no breve momento em que ele consegue lutar contra seu último inimigo invencível. Esse momento de clareza, poder e conhecimento é o suficiente."

Sinceramente,

Rodrigo Seledon.