sexta-feira, 18 de março de 2011

Vida que há,


Numa tarde qualquer, Artur pegou o violão, não conseguia mais compor as canções de outrora, sentia que algo escorria entre seus dedos, era a vida se espalhando, indo pra fora, muito longe. Correu para o quintal, o violão foi ao chão, uma corda estourou, ao chegar do lado de fora, avistou o céu azul que implorava para ficar sobre sua cabeça, hesitou em continuar, os pássaros voavam soberanos e soavam as notas que Artur deveria retomar no violão, o cão deu um latido estridente indicando quando começar, o mundo girava rápido demais e as sensações eram muito pesadas, quis abandonar o barco, mas o barco já o havia abandonado, quando notou, estava à deriva, dentro de suas próprias ilusões, foi difícil aceitar os medos, pior ainda foi vencê-los, mas quando a escuridão começou a inundar aquela tarde, o rádio tocou a canção que há muito tempo esperava, ouviu, virou e caminhou em direção ao quarto. Não entendia como recomeçar, como reaprender a andar depois de tanto tempo, como viver depois da  morte, era um mês de festas de São João, as pessoas estavam eufóricas e tão quentes quanto as fogueiras que acendiam e ao primeiro reencontro com o  sensível instrumento, Artur sentiu a vivacidade, mas faltava uma corda e ele não tinha uma reserva, porém, superou essa ausência e prosseguiu como seguia com a vida: improvisando.
Não há mais sangue no chão da cozinha, não há mais desenhos negativos no caderno, não há mais dúvidas e não há mais certezas, restou algo intangível a que se apegar, restou a fé. E quando há fé, nenhum fantasma pode voltar a assombrar, nenhuma dúvida pode voltar a te inclinar, nenhuma certeza pode voltar a te enganar, ninguém mais pode te governar. 

A vida é como uma pipa: Depende de alguns atributos para se fazer fluente.

Um comentário:

  1. Uma mistura de Nau à deriva com mapas do acaso rs
    talvez um tiquinho de dois barcos - APONTA PRA FÉ E REMA

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